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17 agosto, 2011

Musical "As Bruxas de Eastwick" alça voo com encanto, sagacidade e tempero brasileiro.

O livro, de John Updike é de 1984. O filme, dirigido pelo australiano George Miller, é de 1987. A primeira montagem londrina do musical é de 2000. A adaptação para o palco é de John Dempsey, com música de Dana P. Rowe. Atualmente a produção britânica está em tour por várias cidades da Inglaterra. A montagem brasileira, que acaba de estrear em São Paulo, no Teatro Bradesco (Shopping Bourbon), além de estar no mesmo nível (ou possivelmente até melhor) que as produções originais, adiciona pimenta brasileira ao texto e às canções, adaptadas pelo sempre sensato Claudio Botelho, que ao lado do meticuloso Charles Moeller, jogam no caldeirão um certo tempero abrasileirado nas atuações e no humor (que já era negro), tudo organicamente inserido na divertida narrativa sardônica de uma cidadezinha do interior americano que entra em polvorosa por causa das aventuras sexuais de três mulheres locais e Darryl Van Horne, um estranho sedutor que chega ao lugar. O despertar erótico das jovens senhoras faz a fofoca correr solta. A plateia dá gargalhadas altas, como na deliciosa canção "Roupa Suja".
 Van Horne é o próprio diabo em forma de gente, um demônio faminto por sexo (curioso o seu segundo nome remeter a "horny": excitado sexualmente). As mulheres aprendem com ele a lidar com feitiços e bruxarias e chegam a levantar voo. No musical, esse momento encerra o primeiro ato e é um dos ápices do espetáculo. O técnico em efeitos visuais Heitor Cavalheiro, faz as bruxas literalmente voarem sobre a plateia, em momento de arrebatador deslumbramento para o público. Cavalheiro também é o responsável pela
flutuação do elenco na cena do sonho em "Um Violinista no Telhado" (dirigido pela mesma dupla), que está em cartaz no Rio. O falatório a respeito dos prazeres da alcova das mulheres é conduzido pela primeira dama Felicia Gabriel, brilhantemente interpretada por Fafy Siqueira, que tem gags impagáveis, sagacidade ímpar e uma voz excelente nas canções. 
Eduardo Galvão, como o diabo, melhorou muito musicalmente. Até sex-appeal ele aprendeu a ter para o papel. Seu melhor momento no teatro até agora. As bruxas são vividas por Sabrina Korgut, Renata Ricci e Maria Clara Gueiros. Korgut vive Jane, uma violoncelista acanhada que liberta-se sexualmente através de seu instrumento musical numa cena de grande voltagem erótica. A atriz já tinha demonstrado que era ultra-talentosa em "Avenida Q". Aqui, é um vulcão em erupção musical em cena. A luminosa Ricci (que atuou em "Sweet Charity" e foi Baby June em "Gypsy" ano passado) também está extraordinária como Sukie, a jornalista platinada que não consegue terminar frases. A cena em que o diabo a seduz, fazendo com que ela desate a falar ininterruptamente, em meio aos versos insinuantes é um dos pontos altos.
Maria Clara é uma comediante de talento comprovado na TV. Sua escultora Alexandra não é lá muito diferente da Bibi que ela interpreta na novela das 9, mas sua presença cômica é de grande valia para a veiculação de um texto onde a comédia politicamente incorreta reina. O humor negro corre solto neste musical, que tem figurinos do sempre competente Marcelo Pies, que ganhou este ano o prêmio Shell de Figurino por "Hair". O figurinista colobarou com Botelho & Moeller em todos os seus últimos musicais.
 O talentoso André Torquato, de 18 anos, que deixou todos boquiabertos como Tulsa e seu sapateado à la Gene Kelly em "Gypsy", interpreta Michael, filho de Alexandra. É da boca dele que ecoa a canção romântica mais bonita, "Dentro", um dueto com a ótima Clara Verdier, versão de Claudio Botelho para "Something" (que por sinal, em português, é mais bonita que a original). Além de cantar, Torquato também demonstra grande desenvoltura corporal na energética e contagiante coreografia de Alonso Barros na vibrante

"Dançar com o Demônio", que põe fogo literalmente no proscênio.
Vale ressaltar que esta montagem brasileira não é uma réplica das européias e americanas. Os cenários de Rogério Falcão são originais e reproduzem em muitos momentos a vila de Eastwick no background, em técnica parecida com a de "Um Violinista no Telhado". Os figurinos de Pies são novíssimos.
O uniforme de Fidel, o mordomo (Ben Ludmer),  lembra o visagismo de "A Família Addams" e o colete do diabo tem chamas flamejantes bordadas. Há canções que não estavam nas outras produções. Van Horne carregava um charuto nas montagens estrangeiras. Aqui, foi espertamente abstraído.
Outro fato curioso é o palco ser circundado com um arco de luzes. Dependendo de onde o espectador senta no teatro, dá a impressão de se ver a cidade de Eastwick através de uma luneta ou telescópio.
Entre os coadjuvantes, há as boas presenças de William Anderson, Patrick Amstalden e Daniel Nunes. 
"As Bruxas de Eastwick" é formidavelmente cômico, tecnicamente encantador, musicalmente divertido, cenograficamente mágico. Claudio Botelho e Charles Moeller acertaram mais uma vez. 











04 agosto, 2011

"Ghost - The Musical" tem cenários high-tech, efeitos ilusionistas e canções memoráveis.


Há exatamente 20 anos "Ghost", o filme, de Jerry Zucker, fez um sucesso retumbante nos cinemas. Concorreu ao Oscar de Melhor Filme e deu a Whoopi Goldberg a estatueta de Atriz Coadjuvante. Há 5 semanas estreou no West End, em Londres, a esperada montagem que transformou o longa em um musical. O texto (que todo mundo conhece) é do mesmo Bruce Joel Rubin, o roteirista oscarizado do filme. Continuam no palco todas as cenas antológicas e  hilariantes do filme, exceto a da moeda que percorre a porta. O efeito minimalista não funcionaria no teatro.  "GHOST - THE MUSICAL" é um espetáculo de imenso apelo popular, ultramoderno em sua concepção cenográfica. A iluminação, em parceria com as projeções, têm papéis fundamentais para criar a atmosfera de magia, espiritualidade e aceleração de uma megalópole transposta para o palco. Quase todos os cenários são vistosamente digitais: o background de Nova York, as janelas e vidraças de escritórios e os vagões movimentados do metrô.
Todos os sets são funcionais e orgânicos com a narrativa.
Quase nada soa desnecessário. É um musical high-tech. As laterais do palco são preenchidas verticalmente com spotlights que ofuscam a platéia (como faróis de carros) nos momentos-chave de ilusionismos. Os efeitos visuais também são dignos de nota. O responsável é o ilusionista PAUL KIEVE, colaborador de "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban". A plateia fica maravilhada ao ver Sam Wheat atravessar portas e transpor objetos. 
As cancões, a maioria pop-rock, uma gospel, outra de pegada street-dance e baladas românticas, são de DAVE STEWART (ex-parceiro de Annie Lennox no duet Eurythmics) e GLEN BALLARD, que tem no currículo arranjos e letras de canções de Michael Jackson a Alanis Morrissette (o album 'Jagged Little Pill', vencedor do Grammy, é dele). Sim, as músicas são reconfortantes e energéticas.  Todos saem do teatro encantados, cantarolando e comprando o CD ou fazendo o download assim que chegam em casa.
 Sam Wheat é interpretado por RICHARD FLEESHMAN, em sua primeira oportunidade como protagonista. Ano passado ele estreou no West End na montagem de "Legally Blonde". Este é seu segundo musical. Um ator que deixa a desejar em momentos dramáticos, mas soube construir com muita verossimilhança um sotaque americano crível (ele é britânico). Tem uma voz potente, virilidade e uma robustez cênica essenciais para a identificação com o personagem. Seus solos em "Hold On" e "I Had a Life" são vigorosos.
 Molly Jensen foi entregue à canadense CAISSIE LEVY, conhecida como Sheila na montagem recente de "Hair", Elphaba em "Wicked", Penny Pingleton em "Hairspray" e Maureen em "Rent". Uma voz limpa e possante, perfeita para interpretar canções com grande apelo emocional como "With You", "Nothing Stops Another Day" e "Rain".
A vidente charlatã é vivida pela extraordinária SHARON D. CLARKE, inglesa nascida e criada em Londres e com um currículo que inclui Mamma Morton em "Chicago", Rafiki em "The Lion King" (sua voz em "The Circle of Life" é inconfundível), Maybelle em "Hairspray" e Joanne em "Rent". Uma atriz de grande segurança dramática, inteligente na composição de uma vigarista. Ela consegue ser tão boa quanto Whoopi Goldberg sem imitá-la. E que voz! 
Whoopi não daria conta de suas canções. Sua interpretação vibrante em "I'm Outta Here" (cujos acordes lembram "It's Raining Men") é arrasadora.
O vilão Carl Bruner é o britânico ANDREW LANGTREE, cujo background inclui Sky no elenco londrino original de "Mamma Mia" e Eddie em "Blood Brothers". 
O veterano MARK WHITE tem um breve e ótimo momento como o morto que recepciona Sam no hospital e canta a divertida "Ball of Wax" (Baile de Cera). White foi Tulsa em "Gypsy" e Mike em "A Chorus Line".
As coreografias são de responsabilidade do australiano ASHLEY WALLEN, colaborador de Baz Luhrmann em algumas danças em "Moulin Rouge" e na versão cinematográfica de "Phantom of the Opera". Wallen também coreografou algumas cenas do novo filme de Madonna, "W.E." e também a divertida campanha da Lipton, onde Hugh Jackman saltita e dança em vários lugares do mundo. As coreografias de "Ghost" são modernas, urbanas, street-dance misturadas a um curioso balé que se expande nas sombras e silhuetas das projeções.
Andrew Lloyd Webber foi ver "Ghost" esta semana e vaticinou o show como "um dos melhores musicais dos últimos 20 anos". Um comentário superestimado, claro, mas que trará reconhecimento ainda maior a este espetáculo que acaba de estrear em Londres com elogios dos grandes jornais e críticas favoráveis, com carreira prevista até janeiro de 2012, mas certamente ficará alguns anos em cartaz, merecidamente.












21 julho, 2011

Já existe 'Oscar buzz' em torno dos novos filmes de Cronenberg, Eastwood e Daldry.

Ainda estamos em Julho mas na indústria e no métier já existe burburinho em torno dos possíveis indicados aos principais prêmios do primeiro semestre de 2012: Globo de Ouro, BAFTA, National Board of Review e claro, o Oscar, apenas citando alguns. Já existe "Oscar buzz" circundando algumas produções que ainda estrearão nos próximos meses. Woody Allen deve receber algumas indicações pelo seu delicioso "Meia-Noite em Paris" (Midnight in Paris), o maior sucesso comercial da carreira do neurastênico novaiorquino. Pelo menos na categoria Roteiro Original sua indicação é certa (deve ter como concorrente a comédia também muito bem-sucedida "Missão Madrinha de Casamento" (Bridesmaids).
 "A Dangerous Method", novo filme de David Cronenberg, traz à tona um recorte na vida do psiquiatra suiço Carl Jung, sua amizade com Sigmund Freud, e sua obsessão por uma de suas pacientes, vivida por Keira Knightley. Jung é interpretado pelo incrível e ascendente Michael Fassbender (o Magneto do último "X-Men: First Class"), que pode receber uma indicação para Melhor Ator. Freud é ressuscitado pelo talento de Viggo Mortensen. O filme será exibido em Setembro no Festival de Veneza. O canadense Cronenberg nunca recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor, embora tenha uma filmografia que inclui grandes filmes como "Spider", "Marcas da Violência" (A History of Violence) e "Senhores do Crime" (Eastern Promises). Este talvez seja o filme com o qual ele seja reconhecido com uma indicação ao prêmio.
"J. Edgar", de Clint Eastwood, é desde já um dos mais cotados para Melhor Filme.
Biografia de John Edgar Hoover (Leonardo di Caprio), controversa figura política, chefe do FBI durante quase 50 anos e amante de seu funcionário Clyde Tolson, vivido pelo ótimo Armie Hammer (os gêmeos de "A Rede Social"). O roteiro é de Dustin Lance Black, que venceu o Oscar de Roteiro Original por "Milk".  "Descendants" é o novo projeto do diretor Alexander Payne (de "Sideways" e "As Confissões de Schmidt"), com George Clooney vivendo um homem que precisa reconquistar o amor de suas duas filhas, depois da morte acidental da esposa. Clooney lançará nos próximos meses sua nova direção "The Ides of March", que traz grandes interpretações de Ryan Gosling e Philip Seymour Hoffman. "We Bought a Zoo", baseado no livro de Jonathan S. Foer, é a tentativa de reconhecimento de Cameron Crowe. Há 6 anos o diretor lançou o morno "Tudo Acontece em Elizabethtown". Talvez agora o realizador retome o prestígio que obteve com "Quase Famosos", em 2000 . No elenco, Matt Damon e Scarlett Johansson vivendo um casal às voltas com a administração de um zoológico falido. 
"Extremely Loud and Incredibly Close" é dirigido por Stephen Daldry ("Billy Eliot", "As Horas"), com Tom Hanks e Sandra Bullock, e investiga as feridas do 11 de Setembro. "Cavalo de Guerra" (Warhorse), de Steven Spielberg, pode dar ao diretor uma indicação (a última vez que ele concorreu foi em 2005, por "Munique"). Há quem diga que a nomeação é certa para o francês Niels Arestrup (de "O Profeta"), como Ator Coadjuvante.
"A Árvore da Vida" (The Tree of Life), de Terrence Malick, Palma de Ouro em Cannes de Melhor Filme este ano, estreia no Brasil dentro de algumas semanas, tem grandes chances também. Brad Pitt cotado como coadjuvante.
Entre os filmes estrangeiros já existe especulação em torno do espanhol "La Piel Que Habito", de Almodóvar e do francês "L'Artiste", filme mudo sobre a transição do cinema-mudo para o falado no anos 20, de Michel Hazanavicius, que deu ao seu protagonista, Jean Dujardin, a Palma de Ouro de Melhor Ator em Cannes.
 Dujardin pode ter como concorrentes Gary Oldman no thriller "Tinker, Taylor, Soldier, Spy" e Sean Penn na pele de um rockstar maquiado em "This Must Be The Place".
Entre as possíveis indicadas a Melhor Atriz estão a sempre fabulosa Glenn Close, vivendo uma mulher que se passa por homem na Irlanda do final do século 19, em "Albert Nobbs".  A atriz não concorre ao Oscar há 22 anos (desde "Ligações Perigosas"). Dirigido pelo colombiano Rodrigo García (filho do escritor Gabriel García Marquez), traz no elenco a australiana Mia Wasikowska ("Alice") e Jonathan Rhys Meyers ("Match Point"). Janet McTeer, também vivendo uma 'crossdressing woman', tem chances como coadjuvante. No páreo também está Meryl Streep, que pode receber sua 17a indicação por "A Dama de Ferro" (The Iron Lady), no papel da Primeira Ministra Margaret Thatcher.  As duas podem ter como concorrente Kirsten Dunst, vencedora em Cannes por "Melancolia" (Melancholia), do polêmico Lars Von Trier. Mas depois do papelão antissemita em Cannes, será que seu filme ainda terá prestígio junto aos votantes?
Entre os coadjuvantes, há muitos elogios e comentários para a performance da inglesa Andrea Riseborough, pelo papel de Wallis Simpson, uma americana divorciada que vive um affair com o rei Edward VIII em "W.E.", dirigido por MadonnaViola Davis ("Dúvida") e a novata Octavia Spencer foram muito elogiadas no drama "Vidas Cruzadas" (The Help), sobre preconceito racial no sul dos EUA.
Naomi Watts e Judi Dench estão cotadas em "J. Edgar".  Christopher Plummer deve receber uma indicação como coadjuvante pelo personagem de pai gay que sai tardiamente do armário em "Begginers".  Kenneth Branagh também tem chances pela personificação de Laurence Olivier em "My Week with Marilyn". 
O garoto Thomas Horn pode ser indicado por "Extremely Loud and Incredibly Close".  Albert Brooks vem sendo elogiado em "Drive" (no qual Ryan Gosling vive um dublê).
 Ben Kingsley pode concorrer por "Hugo", a fantasia de Martin Scorsese situada na Paris dos anos 30, com roteiro de John Logan ("Gladiador"), que também escreveu a fabulosa animação "Rango", de Gore Verbinski, até agora a favorita, junto com "Rio", de Carlos Saldanha, para Melhor Animação. Em 2012 parece que a Disney e a Pixar, depois de muitos anos, ficarão de fora na categoria. 

Muitas campanhas ainda serão feitas, muitos estúdios enlouquecerão, Harvey Weinstein (da Miramax) ainda gastará milhões tentando convencer os votantes da qualidade de suas produções (como fez com o mediano "O Discurso do Rei" (The King's Speech).  Adoraria poder dizer "que vença o melhor", mas nem sempre é assim que acontece. 


27 maio, 2011

"BEGINNERS" traz Christopher Plummer vivendo um pai que sai do armário aos 75.

Dia 3 de Junho estreia nos EUA o novo trabalho do diretor americano Mike Mills, "BEGINNERS". Mills retorna à direção de longas cinco anos depois do festejado "Impulsividade" (Thumbsucker, 2005), que trazia o ator Lou Taylor Pucci interpretando um adolescente e sua obssessão oral por chupar o próprio polegar. Desta vez, Mills investe em um drama semi-autobiográfico com borrifos de comédia, mostrando a relação pai-e-filho de uma maneira espirituosa e delicada. A dramédia tem ação em Los Angeles, em 2003. EWAN MCGREGOR é Oliver, um depressivo designer gráfico cujo trabalho pouca gente conhece. Está começando um relacionamento com Anna (a francesa MÉLANIE LAURENT, de "Bastardos Inglórios") e tem um cachorro fofo antropomorfizado chamado Arthur cujos pensamentos ele consegue ler. Oliver é acometido com duas bombásticas notícias: seu pai (CHRISTOPHER PLUMMER) saiu do armário aos 75 anos de idade, depois da viuvez e está com câncer em estado terminal.
O fato de Oliver conversar com seu 'jack russel terrier' (há divertidas legendas na oralidade do pet) traz um certo realismo mágico à narrativa, que também é repleta de sarcasmo ao tratar de perdas e reinvenções de vidas.
O filme tem desdobramentos não-lineares e mostra a confusão mental de um homem de meia-idade ao deparar-se com a morte iminente de seu pai, o mesmo revelando-se gay, investindo em um namorado (o ator croata GORAN VISNJIC), frequentando baladas e comprando revistas temáticas. Sua desorientação, porém, nem é tanto pelo fato da revelação da homossexualidade do pai. Seus insights residem no fato dele se questionar como o pai pôde permanecer 45 anos casado com sua mãe. A imagem do pai beijando sua mãe antes de sair para o trabalho não sai de sua cabeça. Ele amava a esposa? Os questionamentos dentro de sua cabeça sobre relações conjugais o levam a avaliar se ele mesmo deveria casar-se.
 Ewan McGregor e Mélanie Laurent são um casal cativante, cuja química irradia na tela. O canadense Christopher Plummer é um ator iluminado, repleto de um repertório de nuances e singelezas interpretativas de fazer gosto de ver. Ano passado ele concorreu ao Oscar de Ator Coadjuvante pela personificação de Leon Tolstoy em "A Última Estação" (The Last Station).
O roteiro semi-autobiográfico de Mike Mills investiga a vida de seus próprios pais e fala de uma maneira lírica essa jornada emocional com olhar poético e corajoso sobre a repressão que possa existir no universo heterossexual.
 "Beginners" é um filme doce, original e bem amarrado sobre a intimidade e o amor entre pai-e-filho e sobre novos caminhos nas vidas de dois homens de idades distintas.
Lou Taylor Pucci, o adolescente de "Impulsividade" faz aqui uma ponta no papel de um mágico.
 Exibido no último Festival de Toronto, em setembro do ano passado, passou também pelos Festivais de San Franciso e Seatlle há algumas semanas. Em Junho, será o filme de encerramento no Festival de Sydney. Em Julho estreará na Inglaterra, Suécia e Polônia. Ainda sem previsão de estreia no Brasil.

04 abril, 2011

Montagem brasileira de "Evita" é madura, hipnótica e veloz.

O diretor JORGE TAKLA tem no currículo musicais competentes como "West Side Story", "My Fair Lady" e "O Rei e Eu". Na condução da montagem brasileira da ópera-rock "EVITA", uma das partituras mais famosas de Andrew Lloyd Webber, o minucioso Takla acerta a mão em um espetáculo de difícil execução, canções complexas e que exigem versatilidades vocais e uma escolha de elenco que não poderia ter erros.
PAULA CAPOVILLA, que tem no extenso background papéis como a Sra. Potts em "A Bela e a Fera" e Madame Giry em "O Fantasma da Ópera", tem aqui sua grande chance como protagonista, comprovando toda a sua capacidade no canto e a densidade emocional que a personagem necessita. DANIEL BOAVENTURA, que foi Billy Flynn em "Chicago" e Henry Higgins em "My Fair Lady", tem potencialidade vocal formidável, mas fica difícil enxergá-lo dramaticamente como o coronel Juan Perón.  
FRED SILVEIRA, que foi Jesus em "Godspell" e Trek Monstro em "Avenida Q", aqui como Che Guevara, alcança um belo momento de sua carreira, sarcasticamente narrando o espetáculo do começo ao fim. Inteiramente cantado (sem nenhum diálogo e sem espaços para aplausos), "Evita" é um tour-de-force para o vibrante elenco. Além da partitura musical sem interrupções, há trocas de figurinos vertiginosas, em velocidade alucinante. Aliás, esse foi outro ponto em que Takla acertou desta vez: o ritmo. Em seu espetáculo anterior, "O Rei e Eu", existiam várias "barrigas" e quebras desnecessárias na narrativa.
Em uma das canções Evita diz que "a vida foi veloz" e assim o é este esplêndido musical, que tem cenários sofisticadamente limpos e brancos. Jorge Takla, que também é responsável pela cenografia, foge do lugar-comum e opta por linhas elegantes e monocromáticas, deixando brilhar os 350 fulgurantes figurinos do extraordinário FABIO NAMATAME. As cafonices e excessos que existiram nos cenários de "O Rei e Eu" deram aqui lugar à sofisticação minimalista e uma escadaria que por vezes chega a lembrar o ateliê de "Mademoiselle Chanel". "O Rei e Eu" envelheceu. "Evita" não. Permanece atual, poderoso na sua sua ousadia ao desvendar os jogos políticos e as alianças por interesses.
Takla também comete uma ousadia com as projeções, a cargo de Luciana Ferraz, Juliano Seganti e Otávio Juliano. Em algumas cenas, enquanto a ação ocorre, vemos imagens gigantes em uma espécie de tríptico visual, repleto de fotos e videos reais, o que possibilita um atmosfera documental. Eu nunca tinha visto projeções funcionarem tão bem em um musical.  Takla acertou em cheio, numa direção madura, majestosa e audaz.
As coreografias estonteantes e hipnóticas ficaram a cargo de Tânia Nardini. Há apenas um momento de um tango entre Evita e o coronel Perón que poderia ter sido mais ensaiado. Eles parecem desajeitados e desacelerados, mas o espetáculo acabou de estrear e com o passar das semanas devem ajustar-se nesta cena específica, que não compromete em nada a magnitude do projeto.  As letras de Tim Rice foram traduzidas para o português pelo mago CLÁUDIO BOTELHO, que mais uma vez, nos brinda com versões emocionantes. "High Flying, Adored", por exemplo,  foi espertamente traduzida para "A estrela subiu". 
"Evita" fez a estrela Paula Capovilla realmente subir.
No elenco coadjuvante destacam-se Bianca Tadini, Roberto Rocha e Pedro Ometto (alternante de Perón).
 Minha próxima ida será para comprovar o trabalho da alternante Alessandra Verney, no lugar de Capovilla.
"Evita" estreou em 1978 em Londres, com Elaine Paige. No ano seguinte, chegou à Broadway, com Patti LuPone. Em 2007 teve seu último revival no West End. Há 15 anos, Alan Parker dirigiu a adaptação cinematográfica, com Madonna no papel-título e Antonio Banderas como Che. Arrisco dizer que "Evita" talvez seja o musical mais arrebatador de Jorge Takla. O diretor não faz julgamentos políticos. Apenas deixa vir à tona toda a beleza daquele amor épico e a figura de conto-de-fadas que essa mulher representou para o povo.
Próximo ano, tudo indica que haverá um novo revival em Londres, com Elena Roger (mesma atriz da montagem de 2006-2007) e Ricky Martin, no papel de Che Guevara.

14 março, 2011

"Legally Blonde" vence como Melhor Musical no Olivier Awards, premiação do teatro em Londres

Ontem foram entregues as estatuetas da 35a. edição do Laurence Olivier Awards, o equivalente ao Tony Awards (americano), em Londres. É a premiação mais importante do teatro na Inglaterra. "CLYBOURNE PARK", do dramaturgo americano Bruce Norris, foi a vencedora como Melhor Peça Dramática, e fala sobre racismo nos EUA. A pergunta que fica é se o racismo hoje em dia ainda não é quase o mesmo que há 60 anos.
O melhor revival foi para "AFTER THE DANCE", peça escrita em 1939 pelo britânico Terrence Rattigan, e de alguma forma, negligenciada durante todas estas últimas décadas, agora reconquistando seu valor. O texto fala sobre o hedonismo,  a futilidade e a decadência emocional de um gupo de ricaços nos anos 20, numa Inglaterra pós-Primeira Guerra. Além de melhor revival, venceu também Melhor Figurino, Melhor Ator Coadjuvante (ADRIAN SCARBOROUGH) e Melhor Atriz para NANCY CARROL (foto), que concorria com Tracie Bennett, considerada extraordinária por todos os críticos como Judy Garland em "End of the Rainbow".
ROGER ALAM venceu como Melhor Ator em peça dramática pela atuação como Fallstaff em "Henry IV" (partes 1 e 2). Na categoria bateu o favorito Derek Jacobi em "King Lear".
O grande perdedor da noite foi o musical "Love Never Dies", continuação de Andrew Lloyd Webber para "Phantom of the Opera. Era o espetáculo com maior número de indicações. Saiu de mãos abanando, perdendo para a comédia "LEGALLY BLONDE", adaptação do filme americano de 2001, "Legalmente Loira", que também premiou a protagonista SHERIDAN SMITH (foto) e a coadjuvante JILL HALFPENNY. Vi ano passado em Londres e é um musical realmente formidável e divertido, com ótimas canções. É um sucesso de bilheteria no West End.

O melhor ator em musical foi DAVID THAXTON, em "Passion", onde concorria com um dos favoritos Ramin Karimloo, o fantasma em "Love Never Dies".

Angela Lansbury e o produtor Cameron Mackintosh entregaram um prêmio especial ao compositor americano STEPHEN SONDHEIM (foto), pelos 80 anos de idade e pela contribuição ao teatro nas últimas décadas. O compositor falou sobre a influência do teatro britânico em sua vida, que o fez escrever musicais como "Into the Woods" (vencedor como Melhor Revival de Musical e montada sem sucesso em São Paulo ano passado), "Sweeney Todd", "A Funny Thing Happened on the Way to the Forum" e "Assassins".

A veterana Angela Lansbury, que atuou ano passado em "A Little Night Music", de Sondheim, cantou "Liaisons", canção do musical.
A premiação mais importante do teatro na Inglaterra rendeu-se aos EUA, premiando Sondheim, uma adaptação de um filme americano "Legally Blonde" (que deve estrear em Nova York nos próximos meses) e uma nova peça também americana, "Clybourne Park".
Em Junho será a vez do Tony Awards, nos EUA.

28 fevereiro, 2011

O inconfiável Oscar nem sempre elege o Melhor Filme e sim, o que fez a melhor campanha entre os votantes.

Fazendo um levantamento sério e meticuloso a respeito dos filmes que ganharam o prêmio da Academia nestes 83 anos, chegamos a uma constatação: em mais de 60% das ocasiões o Oscar de Melhor Filme foi equivocado. A estatueta de melhor produção do ano acabou sendo entregue a um filme cujo lobby foi mais poderoso do que suas qualidades artísticas. As campanhas para "convencer" os votantes de que determinado filme merece ser coroado como o melhor do ano são tão incisivas e milionárias que chegam a resultados constrangedores. Resultados esses que só são percebidos anos depois. Muitos filmes que ganharam a estatueta de Best Picture são esquecidos ao longo dos anos. Em contrapartida, os que não levaram (ou que nem chegaram a ser indicados) tornam-se clássicos e referências da sétima arte. A cada ano o "selo" Oscar torna-se mais obsoleto, desonesto e inconfiável. Dificilmente escolhe o melhor e mais significativo filme do ano. Escolhe o que fez a melhor campanha para vencer a categoria.
 Ano passado o melhor filme do ano foi indiscutivelmente "Bastardos Inglórios" (Inglorious Basterds), de Quentin Tarantino, mas a campanha em torno do politicamente engajado "Guerra ao Terror" (The Hurt Locker) fez com que ele saisse da cerimônia com o prêmio, desbancando até o poderoso blockbuster "Avatar".
Em 2007 os dois grandes filmes do ano haviam sido "O Último Rei da Escócia" (The Last King of Scotland) e "Vôo United 93" (United 93), mas o Oscar foi parar nas mãos de "Os Infiltrados" (The Departed), de Martin Scorsese, numa ação que também é típica da Academia: reparar erros do passado e premiar grandes diretores por filmes posteriores menores.
Scorsese não ganhou o Oscar especificamente por "Os Infiltrados" (um dos mais fracos da filmografia dele) e sim por toda uma carreira e por nunca ter levado o prêmio pelo extraordinário "Touro Indomável" (Raging Bull), que perdeu em 1981 para "Gente como a Gente" (Ordinary People), de Robert Redford. Hoje em dia poucos lembram deste drama. Já o magistral filme de Scorsese sobre boxe é tido como um clássico e um dos melhores filmes já feitos sobre o tema. Scorsese também foi injustiçado outras vezes. Em 1990 o soberbo "Os Bons Companheiros" (Good Fellas), hoje um clássico sobre gângters, perdeu para o correto "Dança com Lobos" (Dances with Wolves). Em 1977, "Taxi Driver", também de Scorsese, perdeu para "Rocky, um Lutador", num ano que o extraordinário "Todos os Homens do Presidente" (All the President's Men), de Alan J. Pakula, também concorria. Em 1996, "Cassino" (Casino) era o melhor filme do ano, mas não chegou nem a ser indicado a Melhor Filme. Os membros da Academia preferiram os risíveis "Babe - o Porquinho" e "Coração Valente" (Braveheart), de Mel Gibson, que acabou vencendo. Onde ficaram as carreiras promissoras de Gibson e Kevin Costner? A Academia deve ter vergonha de tê-los premiado.
Em 1942 "Cidadão Kane" (Citizen Kane), hoje um fos grandes filmes de todos os tempos, de Orson Welles, perdeu para "Com Era Verde o Meu Vale" (How Green Was My Valley).
 Em 1952 "Sinfonia de Paris" (An American in Paris), de Vincent Minelli venceu, mas os indicados eram os clássicos superiores "Um Bonde Chamado Desejo" (A Streetcar Named Desire) e "Um Lugar ao Sol" (A Place in the Sun).
Em 1953 o faroeste clássico "Matar ou Morrer" (High Noon) perdeu para "O Maior Espetáculo da Terra" (The Greatest Show on Earth).
Em 1957 o vencedor foi "A Volta ao Mundo em 80 Dias" (Around the World in 80 Days), enquanto os indicados eram os antológicos "Assim Caminha a Humanidade" (Giant), "Os 10 Mandamentos" (The Ten Commandments) e "O Rei e Eu" (The King and I).
Em 1972 o fabuloso "Laranja Mecânica" (Clockwork Orange), de Stanley Kubrick (que aliás morreu sem ter recebido um Oscar), perdeu para "Operação França" (French Connection). Qual dos dois filmes é lembrado como um clássico absoluto hoje?
Em 1980 o retumbante "Apocalipse Now" (Apocalypse Now), de Francis Ford Coppola, perdeu para "Kramer versus Kramer". Qual dos dois é tido atualmente como um grande filme?
Em 1990 "Nascido em 4 de Julho" (Born of the 4th of July) e "Sociedade dos Poetas Mortos" (Dead Poets Society) eram os dois grandes filmes do ano, mas quem ganhou o Oscar foi o bonito e apagado, com o passar dos anos, "Conduzindo Miss Daisy" (Driving Miss Daisy).
Em 1999 "O Resgate do Soldado Ryan" (Saving Private Ryan), de Steven Spielberg, perdeu inacreditavelmente para "Shakespeare Apaixonado" (Shakespeare in Love), num dos momentos mais injustiçados e constrangedores da história da Academia.
Em 2001 "Traffic", de Steven Soderbergh, foi o filme mais elogiado pelos críticos mas o grande vencedor do Oscar foi "Gladiador" (Gladiator), de Ridley Scott, que acabou perdendo a estatueta de diretor para Soderbergh. Scott não recebeu apenas por "Gladiador", um bom filme, e sim, como recompensa por não ter sido sequer indicado em 1983 pelo clássico "Blade Runner - Caçador de Andróides" (Blade Runner) e também pelos aclamados "Alien, o Oitavo Passageiro" (Alien)  e "Thelma & Louise".
Em 2003, os dois grandes filmes do ano eram "As Horas" (The Hours), de Stephen Daldry e "O Pianista" (The Pianist), de Roman Polanski, mas quem levou o Oscar foi o musical "Chicago", de Rob Marshall, hoje, quase 10 anos depois, um filme regular apenas. Marshall nunca mais fez um filme que prestasse depois. 
Em 2006 o comovente e original "O Segredo de Brokeback Mountain" (Brokeback Mountain), de Ang Lee, perdeu para o mediano "Crash", em outro momento lembrado como um dos maiores erros da Academia.
Este ano quem levou foi o bonito, esquecível e mediano "O Discurso do Rei" (The King's Speech),  fato que com certeza será citado por especialistas em anos posteriores. O diretor, Tom Hooper, que tem uma carreira na TV e não no cinema, tirou o Oscar das mãos dos diretores com carreiras consagradas dos dois grandes filmes do ano: "Cisne Negro" (Black Swan) e "A Rede Social" (The Social Network).
Eu não tenho dúvida de que nos próximos anos Darren Aronofsky (de "Cisne Negro") e David Fincher (de "A Rede Social") serão premiados por filmes possivelmente "menores", como reparação à injustiça deste ano.
A categoria Filme Estrangeiro, então, renderá um post futuro. Em mais de 80% das vezes a Academia premia o filme errado. Vai entender.